terça-feira, 10 de setembro de 2013

A nossa intimidade nas mãos de outros


Olá a todas

Não é meu costume fazer este tipo de postagens, mas pensei partilhar estes 30m da minha vida que me deixaram chocada e confusa.

Na 6ª feira passada apanhei a camioneta e sentou-se ao meu lado uma senhora, que eu conheço simplesmente de vista, de a ver na paragem, nem sequer mora no mesmo prédio.

A "coisa" começou:
- posso sentar-me aqui, vizinha?

Ainda não eram 7H e a esta hora eu ainda sou como o Anacleto e venho com um olho meio fechado e o outro meio aberto, respondi-lhe que sim e pensei (meu Deus, deixa-me ir descansadinha a mentalizar-me que tenho de acordar mesmo).

A dita vizinha desatou a falar que tinha dormido mal porque os homens da recolha do lixo a tinham acordado, depois foi alguém que no prédio tinha água a correr a meio da noite, que não têm respeito pelas pessoas que estão a dormir e que têm de trabalhar no dia seguinte...

Enquanto isto eu estava calada, enquanto ela continuava:

- sim, que eu trabalho, e é um trabalho cansativo, trabalho em 3 casas, num condomínio fechado (e disse onde era), mas são casas que não têm nada a ver com as nossas, enormes, a do 8º é grande, mas a do 11º então...




e eu, sempre calada...

- são casas lindas, mas trabalhosas, felizmente, os meninos hoje já foram para a escola, é que não se está tão à vontade e é uma responsabilidade.
e eu, sempre calada, maneando a cabeça, só para "a vizinha" ver que não estava a dormitar, quando ela, se calhar para me espevitar, diz:

- quer ver?

e saca o telemóvel (destes delizantes) e começa a mostrar fotografias

- esta é a cozinha, esta é da sala, esta é do outro lado da sala... (com o dedo deslizava), um dos quadros da sala, outro quadro... tudo coisas caríssimas... ela destrói o dinheiro todo, ela é Directora d......., deve passar o dia sem fazer nada, só vai buscar os meninos o colégio e quando chega a cada não faz nada... claro, tem-me a mim todos os dias...

- já viu esta foto?

parecia uma foto estragada, branca com mangas mais escuras...

- é do pano depois de eu limpar as janelas, fica assim, porque ela não faz nada.

E eu aí tive de contar até 10 para não lhe perguntar: mas se ela fizesse, a senhora não tinha trabalho, também era mau para si, mas resolvi manter-me calada.

Só que depois o dedo deslizou para uma foto de um menino e uma menina (bem pequenos), a lavarem os dentes...

- são os meninos, que começaram hoje a escola, são muito giros, mas irrequietos,

- olhe esta, tão giros, e esta, e esta...

- Já chegámos, disse eu... finalmente estava safa.

- Então até amanhã, ah, é fim de semana, senão mostrava-lhe mais...

Respirei o ar da manhã, não muito puro, mas soube-me tão bem, estava atordoada, chocada, confusa... será que sou eu que não sou normal?

Ela não me conhecia e tinha bastado duas os três perguntas para ficar com a saber de que côr era a roupa interior que a patroa usava, meu Deus...

Esta história tem-me vindo à memória, as fotos das crianças, tantos pormenores... quantas pessoas já terão visto?

Quer dizer, ela trabalhava muito, mas também fotografava muito.

E não digo aqui nem 1/3 do que ela me disse.

Quando cheguei a casa, disse ao meu marido:

- Que fique bem claro, se um dia nos sair alguma coisa de jeito, não quero ter empregada, ouviste?

- estás amalucada? O que te deu?

- e contei-lhe, mas à medida que via as expressões dele, apercebi-me que não fui só eu que fiquei chocada, ele também ficou.

Se um dia me der para ter empregada, que seja assim, um robot:

 Não é que hoje ao telefone a minha mãe me diz:

- A vizinha do rés do chão tem mulher-a- dias, que é a mesma do filho, e não é que ela lhe disse, com um ar muito autoritário:

- D. E....., veja lá se diz ao seu filho que não ponha os ténis debaixo da cama. Não gosto nada disso, é feio, nada higiénico e é péssimo para eu limpar.

- D. Adriana (disse a vizinha à minha mãe), já viu? Vou comprar-lhe uma sapateira, mas a casinha dele é tão pequena...

Só me apeteceu gritar, e vim desabafar com vocês... desculpem-me.

Vou continuar a fazer como sempre fiz, tarefas partilhadas, embora a maior parte sobre para mim e, por muito que faça, só consigo manter os mínimos.
Prefiro assim. do que dar a minha chave de casa a outras pessoas.

Espero não melindrar ninguém, não podemos medir todos pela mesma bitola, só quis partilhar este pequeno episódio da minha vida, da mesma forma que tenho partilhado outros, mas que fiquei satisfeita por não ter empregada, isso fiquei, hi, hi.

Beijinhos a todas

11 comentários:

Mª Fátima disse...

kkkkkk... Adorei o post! Já tive ajudante em minha casa e é bem assim mesmo. Sinto-me bem melhor sem elas rsrs... Bjs e ótima semana.

Maria disse...

Olha Helena o texto delicioso que escreves-te a propósito do que te aconteceu puxava para o riso...mas queres crer que não ri??? Esse tipo de coisas só provocam em mim dois sentimentos....meeedo e raiva...!!! Como é que é possível...neste momento não tenho ajuda em casa...com tudo o que está a passar-se não é possível, mas já tive e em cada da minha mãe tenho duas senhoras em turnos a cuidar dela...e de novo meeedo...sustooo!!!
Bjs
Maria

Vivi disse...

Ai Leninha o que já me ri contigo. Estou a imaginar a tua cara.
Sem querer ferir susceptibilidades, digo-te que empregada é um mal necessário e que se pudesse prescindir de uma pessoa estranha que invade a nossa privacidade, o faria de imediato.
Tenho uma senhora que me acompanha desde que casei e foi a única honesta que encontrei até hoje. Mas a idade já não lhe permite manter a casa em ordem e desde há alguns anos que tive de arranjar outra de apoio, que infelizmente tenho de ir renovando. Um dia foram as costeletas, outras as pratas, outras as minhas roupas que foram a um casamento, outras aquilo, etc e tal.
Como vivo numa moradia sem vizinhos, não tem como coscuvilhar, mas essa das fotografias nunca me tinha lembrado.
Não vendi o meu antigo apartamento e dividi-o pelos meus filhos.
É o espaço deles, mas por norma vão dormir a casa.
Uma vez por semana vou até lá rechear o frigorífico, etc. É assustador assim que entro no prédio, ver a reunião das empregadas na entrada, a contarem a vidinha toda dos patrões, chegando a entrarem na casa de uns e dos outros.
Outro dia estava a dos meus filhos num blá blá blá, que bastou eu revirar-lhe os olhos para se enfiar em casa.
Ficou avisada que para a próxima vai para a rua.
Há cerca de meio ano, apareci lá sem ela contar. A casa em silêncio absoluto, com excepção de um barulho estranho no andar de cima.
Pensei que fosse algum dos filhotes e subi. Entrei na casa de banho equipada com sauna, etc. Lá estava sua excelência, refastelada como se estivesse no SPA. Ai amiga subiram-me uns calores, que até pareciam da menopausa.
A minha vontade era colocá-la nua na rua naquele momento.
Este é um mero episódio, imagina os outros.
Agora só de imaginar as fotografias dos meus filhos por aí e das nossas casas, ainda mais apreensiva fico.
Minha querida, sem melindrar ninguém, existe muita falta de profissionalismo e ética da parte delas.
Ah uma vez uma delas levou a família toda lá para casa, quando estávamos de férias. O meu marido foi chamado de emergência e interrompeu as férias.
Imagina a cara dele, a chegar de madrugada, entrar no quarto e ter a nossa cama ocupada! Até me estou a rir, juro minha pequenina.
Um dia conto-te mais peripécias bizarras.
Acabei de ler o e-mail e assim que tiver um tempinho venho responder com calma, porque a pressa é nossa inimiga.
Mil beijinhos e aquele nosso abraço, como só nós o sabemos dar.

**Lih** disse...

Oi Helena,

Estou com você, primeiro que eu nem tenho condições financeiras para ter uma empregada, e se um dia tiver também não quero! Eu não consigo imaginar ninguém de fora mexendo nas minhas coisas, ou andando dentro da minha casa, prefiro eu fazer tudo sozinha. Graças a Deus tenho minha mãe que me ajuda muito, ela cuida da roupa e das crianças, o restante eu mesma cuido e é cansativo pois trabalho fora, mas faço com prazer! Adoro cuidar da minha casa, minhas coisas e minha família. Também fico revoltada ao ouvir as pessoas reclamarem do seu trabalho, se não estão contentes peçam as contas e vão fazer outra coisa que gostem. Se essa pessoa fotografa e sabe tanto assim da vida dos patrões imagino que deve bisbilhotar em tudo também...

Feliz de nós que cuidamos da nossa própria casa.

Beijo pra você!

Teresa Isabel Silva disse...

Meu Deus...A mulher deve ser louca sò pode! Ela não deve ter noção nenhuma de responsablidade!

Bjxxx

Adelaide Mesquita disse...

Olá Helena!
Li o teu "artigo" e não posso passar sem comentar.
Como sabes eu tinha a Fátima que já cá trabalhava à muito tempo. Fazia o dia todo na minha casa e na da minha irmã que mora no andar por cima do meu. Podíamos deixar ouro em pó que não desaparecia nem um grãozinho. Se eu não insistisse com ela nem a fruta que fica à disposição ela comia,era demais, mas a nossa confiança nela era total e também não contava a nossa vida. Depois dela, não quero mais ninguém. Empregadas como aquela a que te referes são um autêntico perigo. Podem fazer um trabalho óptimo mas não compensa o risco que se corre. Tenho pena das pessoas onde trabalha. Quando lhe voltou a aparecer um cancro em 2010 é que ela deixou de trabalhar. Não se leste no blog mas infelizmente ela morreu na última semana de Agosto.
Eu já não sou nova e também já não tenho as forças que tinha antigamente, por isso eu combinei com os meus filhos (tenho um rapaz e uma rapariga) a divisão de tarefas para a lida da casa. Poupo dinheiro, o trabalho fica mais bem feito e não tenho ninguém a bisbilhotar por aqui. Não levo as coisas tão a peito e se não poder ser feito numa altura fica para outra. Quando não pode andar melhor, anda pior, mas até agora tem corrido tudo bem. Já vi que também pretendes fazer o mesmo e acho muito bem. Nunca se sabe quem metemos em casa.
Beijinhos
Milai

Teresinha disse...

Ó Helena: que bom teres relatado este episódio caricato. Fizeste-me rir!
É bom ter ajuda, na minha idade então é imprescindível... dadas as limitações físicas impostas pelo DNA (Data de Nascimento Antiga).
Mas ao escolher uma, temos de garantir que não saiba ler/entender sequer um bilhete!!!...
Durante 20 e tal anos tive uma, cópia da Maximiana do Herman José, com a mesma voz e a mesma postura: foi o meu anjo até se reformar velhinha.
Depois veio uma que lia tudo o que estivesse em cima da mesa (testes para exames, trabalhos do meu marido...). Um dia ouvi cliques de corte de unhas... e era mesmo! Ah!... como ela estava à experiência, foi fácil: disse-lhe que lhe telefonaria quando precisasse. Claro que nunca lhe telefonei!
Estive uma temporada sem ajuda, mas não me aguentei.
Há já algum tempo tenho uma ajudante, mais culta que a "Maximiana", ótima, apenas uma manhã, mas é suficiente e estou muito satisfeita.
Mas essa aí do telemóvel... se as patroas sonham isso ela leva um chuto... com justa causa!!!
Adorei o teu divertido post!
Um beijo.

Guida Machado disse...

Pois é, Lena, são situações muito complicadas.
Eu não tenho empregada, por vários motivos, especialmente monetários, mas também não estou a imaginar alguém andar a mexer nas minhas coisas nas minhas costas.
Claro que há excepções como a empregada/amiga da Milai.
Beijinhos,
Guida

Filomena Crochet disse...

Helena,
uma rica história, muito boa para inspirar um quadro humorístico, mas imagino que para você não foi nada humorístico viver essa situação.

Há gente e gente, há de tudo, mas essa corre o risco de qualquer hora levar com o pé na bunda e nem desconfiar do porque....-kkk

beijos Helena...gostei do teu post...

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde,
Ainda bem que somos diferentes uns dos outros, uns quase não falam, outros falam demais, uns gostam de ouvir, outros em por isso, somos assim e assim temos que aceitar o mundo que vivemos.
Moro num edifício de 40 apartamentos os vizinhos unicamente dizem, "bom dia, boa tarde ou boa noite" ninguém sabe quem é quem, não se interessam, no entanto penso, que era mais saudável haver mais convívio entre todos do que sermos caras de paus uns para os outros.
Peço desculpa, mas pessoa que se sentou ao seu lado é uma simpatia de certeza, com mais idade ou menos idade, mais cultura ou menos cultura, mais capacidade monetária ou menos capacidade monetária, somos de carne e osso, somos o que somos e devemos compreender que existe sempre uma razão para tudo.

balado disse...

Olá, Deus me livre de ter em minha casa uma pessoa assim. "Pobre patroa" que de certo nem imagina que a empregada tem o atrevimento e a falta de sensiblidade de mostrar a quem acaba de encontrar tudo o que passa onde trabalha, mas o pior de tudo são as fotos das crianças. Estamos na era da globalisação onde a vida íntima cada vez tem menos valor. É pena!!!
Beijinhos da Alemanha